Perversa cortesia
Ainda que a temporada de shows não tenha terminado junto dos festivais, já dá um certo alívio de saber que não teremos mais grandes eventos e suas constangedoras pistas vips em São Paulo ou arredores - pelo menos até a próxima semana. Em 2010, a organização e produção de shows e festivais como o SWU e Paul McCartney, foram além da histeria e provaram a competência da indústria dos grandes espetáculos. Diferentemente das batalhas honoráveis que veículos tinham de travar para conseguir entrevistas, jornalistas de mídia impressa agora são recebidos para exclusivas até com um ex-Beatle. Outras variáveis da indústria, como negociações das vindas dos artistas já foram abordadas pela Rolling Stone em 2007 e, recentemente, pela Época SP. As duas corroboram a tese de que o Brasil é, além do destino dos dólares do mercado financeiro internacional, um mercado respeitável como bilheteria de shows, atualmente principal apoio do tripé de faturamento de grandes artistas pop.
No entanto, à medida que o mercado se fortalece, aberrações bem brasileiras surgem. A área vip à frente do palco, por exemplo, é a perversão derradeira de uma área antes conhecida como gargarejo. É óbvio que em grandes shows como o de Paul ou de Madonna, dá para entender que as grandes empresas patrocinadoras queiram garantir privilégios para seus convidados perto do palco, mas para isso e desde sempre existiu o camarote. Agora, movidos por uma ganância sem limites, numa prática apenas existente no Brasil, o grupo dos privilegiados, formado em sua maioria por gerentes de marketing, assistente, profissionais de agência e bajuladores de plantão, invadiram e inflaram um espaço antes apenas utilizado pelos produtores para acomodar técnicos, alguns pouquíssimos convidados, cadeirantes e, com raras exceções, jornalistas a trabalho (na maioria, fotógrafos).
Não bastasse mazelas graves da sociedade brasileira como a grande diferença entre ricos e pobres (os avanços podem ser notados, mas ainda são insuficientes e o Vale Cultura ainda não foi aprovado), agora há um mecanismo que separa os privilegiados dos mais privilegiados. Com o tempo, cenas que presenciamos ao vivo ou pela imprensa em geral, do fã formindo na fila para garantir um bom lugar à frente do palco deixarão de existir. A pista vip tornou-se a área dos refrões de embromation e é muito frequente e risível que seus convidados não conheçam a banda que estão assistindo e utilizam do espaço para o exercício estendido de suas reuniões sociais e de negócio, viram as costas para o músicos, acendem seus cigarros (como maneira de afirmação de que estão nas salas de suas casas), tiram fotos em grupo como se estivesse adiante de totens imaginários de marcas de cartões de crédito ou empresas de celular.
Em maio de 2007, algumas semanas antes da realização do show do Cold Play no Brasil, quando os ingressos atingiram a então inédita marca de R$ 600 reais por convite em uma área próxima ao palco, no Via Funchal (suplantando os R$400 do ingresso do show de Ben Harper, em dezembro de 2006), a performance de estréia da nova turnê da cantora e atriz norte-americana Barbara Streisand havia sido cancelado em Roma. O show aconteceria em junho, e embora os organizadores tenham corrido à imprensa para desmentir, os cidadãos daquele republicano país sentiram-se protegidos pelo impedimento do show: Motivo: abuso do poder econômico. Mesmo em uma economia então vigorosa, ativistas de grupos de defesa do consumidor organizaram-se e conseguiram espaço na mídia para protestar contra preços que variavam entre 150 e 900 euros. O argumento usado foi de que as melhores cadeiras para a apresentação de uma ópera no luxuoso La Scala, em Milão, custavam 200 euros. Os ativistas ainda protestavam porque o estádio Flaminio, onde o evento seria realizado era de propriedade pública e “não poderia ser utilizado para acordos imorais que são vergonhosos para um país civilizado”. Ora, quanto a isso, não há mesmo do que reclamar, embora seja possível imaginar que em breve, com a construção do mega estádio do Corinthians, a ser levantado com investimento público, muitos shows passarão a ser realizados lá.
Como a educação e o amadurecimento da sociedade brasileira não avança na mesma velocidade que os índices de crescimento econômico, estamos fadados a assistir de perto (ou de longe), o enraizamento da área vip e, provavelmente, o surgimento de outras picaretagens criadas pelos produtores à revelia do conhecimento das equipes de produção internacionais dos shows contratados. Não podemos esquecer de que, diante da informação de que havia um área vip separando seu público, na contramão das mensagens cantadas em suas músicas, Zac de La Rocha,, vocalista do Rage Against the Machine, pressionou a organização do SWU a diminuir o espaço reservado para os bacanas. O argumento de Eduardo Fischer, o publicitário responsável pela realização do festival, de que a banda viajava de primeira classe soou ridícula. Artistas do porte do RATM estão na estrada há anos e, quarentões, tem o direito de viajar da maneira que lhes convier. Mesmo a parcela mais chavista dos fãs da banda entendem isso.
Com o passar do tempo, São Paulo, a cidade que se orgulha de seu metrô, mas que é contra a construção de estações em seus próprios bairros para não atrair muitos transeuntes às calçadas reservadas a seus pets, vai se transformar numa versão pós-moderna de Johanesburgo durante o apartheid. Não bastasse a sofisticada rede de privilégios alcançadas em negociatas entre empreiteiras e governantes, que impedem o avanço do transporte público e negligenciam as condições de moradia em favelas, ao autismo da sociedade que deixa à própria sorte crianças nas ruas e tratam a epidemia de crack como uma versão mais interativa da série Walking Dead, estamos agora diante da marketização da desigualdade.
O Festival Planeta Terra, ao posicionar mais uma vez o camarote na lateral do palco deu o exemplo de que é possível manter o nível de satisfação de seus clientes (vips ou comuns) sem corromper o espetáculo. O Rock in Rio segue na mesma direção e divulgou que não terá área vips - o que contradiz inclusive eventos que afirmam que só é possível trazer shows concedendo privilégios descabidos aos patrocinadores. Fica a esperança de que as autoridades e sobretudo o senhor promotor João Lopes Guimarães Jr., da Promotoria de Justiça do Consumidor do Ministério Público de São Paulo, atente-se ao problema. De fato, a cobrança por valores exorbitantes por lugares na área vip, está na mesma categoria da venda de convites por cambistas por valores estratosféricos (abuso do poder econômico) ou até constangimento ilegal (pelo uso de barras de metal para separar iguais). E não é preciso ser um ás em matemática para entender que os valores totais pagos por uma pequena parcela do público não seriam suficientes para trazer nem uma fração dos equipamentos de bandas como o U2, Massive Attack ou Kings of Leon. Como a turma do patrocínio afetivo tem provado no Rio de Janeiro, é o público que faz o show: livre para circular livremente na pista, com o direito incorruptível de fazer fila para garantir um lugar mais perto do ídolo e a chance de que, sonhos se concretizem, histórias de amor fagulhem e amizades comecem.
Mário Cruz
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